Homilia Falecimento Beato Carlos D'Áustria

01-04-2025

BEATO CARLOS DE ÁUSTRIA

01 de abril de 2025

Igreja de Nossa Senhora do Monte

O serviço, sinal de esperança

1. "Revesti-vos da armadura de Deus". Ao celebrarmos o aniversário do nascimento para o Céu do Beato Carlos de Áustria, é-nos hoje apresentado o texto da Carta do Apóstolo S. Paulo aos Efésios. Nele, o Apóstolo convidava os fiéis a revestirem-se da armadura de Deus. Dizia: "Tomai a armadura de Deus, para poderdes resistir no dia mau e perseverar firmes, superando todas as provas".

Revestir-se duma armadura é próprio de quem está no meio de uma batalha: serve para defesa do soldado que é atacado (e S. Paulo diz: "para poderdes resistir"); mas serve, igualmente, para identificar o combatente, mostrando a todos — amigos ou inimigos — de que lado o soldado se encontra (e S. Paulo diz: "para puderdes perseverar firmes"); finalmente, a armadura serve para mostrar a disponibilidade do soldado para o serviço que o seu comandante lhe ordenar (e S. Paulo afirma: "superando todas as provas").

Carlos de Áustria — em toda a sua vida, mas em particular durante o tempo em que desempenhou as funções imperiais e, depois, durante a sua doença na nossa Ilha — bem assumiu a armadura de Deus.

Como soldado do seu país, vestiu, sempre que lhe era exigido, a farda que competia às suas funções. Fê-lo não só como defesa (quando partilhou com o resto do exército as trincheiras no campo de batalha), mas também para mostrar a todos que o Imperador estava ali, próximo, no meio do seu povo. E, fê-lo, sobretudo, porque, como tão bem afirmou S. João Paulo II no inesquecível dia 3 de outubro de 2004: "Desde o início, o Imperador Carlos concebeu o cargo que ocupava como um serviço sagrado aos seus povos. A sua principal preocupação consistia em seguir a vocação do cristão à santidade, também na sua ação política".

Mas, para além desta "farda" que os soldados usam no seu quotidiano e em razão da sua profissão — e que Carlos entendia e usava com um significado que ia além do mero "distinguir-se" (como acabamos de notar) — soube o nosso santo Imperador revestir-se duma outra "armadura", não já humana mas divina. Tal armadura — a ele como a qualquer cristão — é dada por Deus no momento do nosso batismo, quando somos "revestidos de Cristo", como afirma também S. Paulo, noutra passagem. É a armadura de Deus, que caracteriza a vida cristã.

2. Olhemos, ainda que brevemente, algumas das características desta "armadura divina" que o soldado de Cristo sempre traz revestida.

Em primeiro lugar, a armadura de Deus não se confunde com o que recebemos da natureza humana. E, por isso é necessário "revesti-la", quer dizer, não a tomar por garantida, mas antes realizar um verdadeiro acto da vontade. Sabemos, com efeito, como somos uma natureza pecadora, sempre pronta a inclinar-se para o mal. A armadura divina (a Graça) é-nos dada por Deus apesar do nosso pecado, ajudando-nos a transformar o que somos, em cada dia que passa, até chegarmos àquela identificação plena com o Senhor. Ou seja: até chegarmos a converter totalmente o homem pecador, a procurar que ele se conforme com o Deus santo.

Contudo, se é certo que a armadura divina não se confunde com o que somos, ela marca a nossa identidade. Devemos, de facto, falar de identidade. Noutro lugar, S. Paulo usa uma outra metáfora (que quase parece entrar em contradição com esta metáfora da armadura, mas que, de facto, a complementa): somos aqueles que transportam um tesouro em vasos de barro, para que se veja tal tesouro vir de Deus e não de nós. Somos aqueles que Cristo quis revestir de si, a quem Ele quis oferecer o seu tesouro.

Somos, por isso, aqueles que se encontram em constante luta, sem descanso nem desânimo. Somos aqueles que defendem Deus e os seus direitos, a sua verdade — que é, simplesmente "a" verdade.

Não se trata, pois, de algo que possamos despir, pois que a luta do cristão é permanente, dura as 24 horas do dia. É luta contra inimigos do exterior, mas é igualmente luta contra nós mesmos, contra as tentações interiores que nos afligem, e luta — S. Paulo sublinhava-o — contra os inimigos espirituais, o príncipe das trevas, a fonte do mal.

Tomemos ainda consciência de que não se trata de aparecermos (e de parecermos) aos olhos do próximo como mais dignos ou mesmo melhores. Se os demais se dão conta de que trazemos connosco tal armadura divina é apenas para que também eles se sintam interpelados a tomá-la na sua vida. Trazer connosco a armadura de Deus apenas nos traz mais e maiores responsabilidades. Revestir-nos da armadura divina significa pois uma disponibilidade total para o serviço de Deus e dos irmãos, sobretudo daqueles que são os mais necessitados.

Mas trazer quotidianamente a armadura divina dá-nos felicidade. Como poderia ser de modo diferente, se tal condição afirma que Deus olhou para nós, nos escolheu, em nós confiou para sermos do seu exército e travarmos o seu combate?

Sim, o combate não é o nosso mas de Deus. Isso significa que as regras não são nossas, as metas não são nossas, nem tão-pouco a recompensa é aquela que possamos ter sonhado. Tudo vem de Deus e para Ele se encaminha. Somos apenas soldados agradecidos, cuja maior felicidade é a de servir tal e tão grande general.

Este comandante poderoso, omnipotente, cujos desígnios se realizam quando a sua palavra é pronunciada, convida-nos a deixar ao longe as obras do pecado, mas é muito frágil perante a nossa liberdade. Defende-nos de tantas tentações, mas não nos consegue defender das nossas escolhas. A liberdade humana é mesmo aquela única realidade que pode derrotar Deus. Aquela realidade diante da qual os seus desígnios de salvação (para nós e para o mundo) podem parar ou permanecer em suspenso, incapazes de prosseguir.

3. Lendo qualquer biografia minimamente isenta do Beato Carlos de Áustria, não podemos deixar de reconhecer como todas estas características nele se encontram presentes de modo excelente. Como cristão, como pai de família, como governante responsável pelos destinos do seu povo, como enfermo que se entrega completamente nas mãos do Senhor.

Peçamos ao Pai, por sua intercessão, que também a nós nos dê a graça de vivermos revestidos de tal armadura, a armadura divina. Que ela nos faça servos de Deus e dos irmãos.  

+ Nuno, Bispo do Funchal